A hipocrisia oceânica na pronúncia

Tião Lucena


Por Tereza Cruvinel
Não há muito o que dizer sobre a noite da hipocrisia. Os que decidiram levar Dilma a julgamento fingiam cumprir o doloroso dever de condenar uma presidente eleita por ter ela cometido crime de responsabilidade. Fingiam acreditar que pedaladas fiscais foram um delito, e não uma prática orçamentária rotineira nos últimos governos, em que os bancos públicos desembolsam recursos e são posteriormente ressarcidos (com juros) pelo Tesouro. Fingiam não saber que os decretos “irregulares” de Dilma apenas remanejaram recursos, que não criaram despesas novas sem autorização legislativa. Fingiam tão completamente, como disse o poeta, que pareciam acreditar sinceramente no que fingiam denunciar. Mereceram o que lhes disse a senadora Gleisi Hoffman ao encerrar seu discurso lembrando Tancredo Neves diante do presidente do Senado Auro Moura Andrade e seus sequazes quando, no calor do golpe de 1964, declarou vaga a presidência da República estando o presidente Goulart em território nacional. “Hipócritas, hipócritas, hipócritas”.
Nobres senadores encalacrados na Lava Jato e em outras investigações exaltavam o zelo republicano que teria faltado a Dilma, bradavam contra o abismo fiscal em que ajudaram a mergulhar o país com suas pautas bombas. Como se muitos deles não tivessem sido sócios do governo Dilma até às vésperas do afastamento, ocupando cargos, distribuindo favores, acumulando vantagens. Mas ali estavam, diziam, para permitir ao país a restauração administrativa (apesar da gastança de Temer).
Bradavam contra a caracterização de golpe porque sabem também que o impeachment é apenas o resultado do ajuntamento de uma maioria, reunindo o PMDB e outros partidos antes aliados com a antiga oposição para derrubar Dilma e empossar o vice que conspirou e traiu. Sabem que esta é a narrativa que a História acolherá.