Motivos egoísticos

Tião Lucena

Miguel Lucena
Delegado de Polícia no Distrito Federal e jornalista
A tendência do ser humano é considerar-se o centro de tudo. Assim, os nossos filhos são os mais incríveis e os nossos problemas também são maiores.

Não enxergamos o problema dos outros e sempre procuramos ajuda sem perguntar se o fardo do semelhante já não é tão pesado.

Somos egoístas e o cancioneiro popular mostra isso bem no verso que sentencia: "Eu tenho pena de morrer, deixar o mundo/Quando eu morrer, o mundo pode se acabar".

Quer dizer que, embora sejamos programados para reproduzir e perpetuar a espécie, o nosso egoísmo ensina que o mundo só tem valor se estivermos vivos.

Quando os trabalhadores começaram a quebrar as máquinas, no início da Revolução Industrial, estavam preocupados não com o avanço da humanidade, com o progresso, mas com o seu ganha-pão naquele momento.

"Mateus, primeiro os meus" e "farinha pouca, meu pirão primeiro" são adágios que sinalizam a natureza egoística do ser humano.

É essa natureza que proporciona o jeitinho e alimenta a hipocrisia social do "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço".

No serviço público, parte dos servidores não está interessada em servir ao público, mas em sair mais cedo, fazer festas de confraternização em horário de expediente, tirar licença médica para não trabalhar e usar como seu o patrimônio da sociedade.

Há casos de servidor que sai de férias e lacra o veículo oficial para outro não usar.

O patrimonialismo - dispor do bem público como se fosse propriedade privada - é mais uma expressão dessa faceta humana.

A endogenia no serviço público está transformando a sociedade em refém de uma camada burocrática que vê as instituições públicas como vaca leiteira de úberes cheios cuja finalidade é alimentar os bezerros da categoria.
A sociedade -ah, sim, já ia esquecendo - fica para depois.