LAERTE CERQUEIRA: 'Por que RC não conseguiu “eleger” seus candidatos e aliados?'


Logo depois do resultado da eleição, ontem (02) à noite, fiz post com uma pergunta: por que o governador Ricardo Coutinho (PSB) com uma aprovação de quase 80%, de acordo com várias pesquisas, não conseguiu eleger seus candidatos e aliados nas principais cidades dos Estado? Por que não conseguiu “transferir” sua popularidade?

Desde já agradeço a interação de alguns que usaram o concorrido tempo para refletir comigo neste Blog. Como alguns, resolvi fazer uma reflexão a mais sobre o tema. Sem verdades absolutas, apenas impressões.

Primeiramente, é preciso entender que não há motivo único e que as “derrotas” ou os tropeços, se acharem melhor, são diferente para cada cidade, onde peculiaridades determinam resultados e vários aspectos influenciam. Tentando ser breve (mas nem tanto) vamos passar por umas cidades.

Em resumo, podemos dizer que foi uma mistura de autossuficiência, articulação míope e também estrábica, incapacidade de cessão, falta de tolerância. Para completar, realidades locais se impõem a força de um cabo eleitoral, um padrinho bom. Em alguns locais é ele que deve se adaptar a realidade e não a realidade aceitar sua suposta força. Um produto simbólico, sem lugar determinado.

João Pessoa

Em João Pessoa, RC pode ter, mais uma vez, esquecido de preparar com antecedência alguém para disputa. Ou talvez tenha feito uma aposta inicial errada. Com uma campanha curta, com custos e proibições novos não era hora de “inventar”. João Azevedo e Cida Ramos têm ótimas qualidades, mas talvez essa não fosse a hora.

A autoconfiança de que era possível “transferir” voto e admiração foi grande demais. Parece-me que o eleitor queria alguém que não refletisse os desejos de Coutinho. Alguém que aparentasse personalidade própria. Aliada, mas independente. Cida e João não conseguiram esse “efeito de autonomia”. Talvez Estela, mesmo com as resistências, traria mais resultado nesse cenário eleitoral atípico.

E ainda, o que é grave: subestimaram o trabalho de Cartaxo. Imaginavam que era mas “gestão líquida”, fluida. Perceberam que era muito mais consistente do que se imagina, mesmo com todos os defeitos. E, para potencializar os problemas, criou-se um cenário completo de terra arrasada. “Algo diferente da realidade”.

Nas pesquisas, Cartaxo tinha um eleitor firme. Nada de volatilidade como suspeitou e/ou afirmou alguns dos seus adversários. Não era tão simples tirar voto e a mudança só seria feita se valesse a pena. O fato é que 59,67% desconfiaram de que era a hora de mudar.

Campina Grande

Para retaliar José Maranhão (PMDB), que deu carta branca a Manoel Júnior em JP, RC resolveu lançar uma candidatura do PSB em Campina. Adriano Galdino, empolgado, talvez cego pelo poder da AL, resolveu ir para a empreitada. Um tombo. PMDB e PSB, que deveriam estar juntos desde o início,  fingiram não ser aliados e também não eram adversários. Uma anomalia incompreendida. Sem falar que Galdino ainda não tinha uma “identidade madura” com a cidade. Resistência pura. A decisão de separar não surtiu o efeito desejado. Para completar, nem um dos dois “redeu” o esperado.

Guarabira


Com uma política polarizada há anos, os socialistas acharam que seria fácil criar uma terceira via na Rainha do Brejo. Até obtiveram um relativo sucesso, com os 16% de Josa a Padaria. Mas não foram muito longe com uma imposição. Entre a tradição há regras subjetivas difíceis de romper. PMDB e PSB não estavam bem em Guarabira, sabiam que separados não iriam muito longe. Resolveram arriscar e perderam juntos.

Em Cajazeiras

Com a máquina na mão, subestimaram a capacidade de união das oposições. Denise viu surgir na sua frente uma força com José Ademir juntando todos no mesmo balaio: Cássio, Maranhão, Aguinaldo Ribeiro: PSDB, PMDB, PP. E, mesmo com a popularidade alta por lá, também acabou tombando.

Santa Rita

Fizeram uma aposta errada. Zé Paulo só tinha uma votação boa como deputado. Apenas isso. Mas não significava que a população queria entregar a chave da cidade para ele. Numa cenário de caos, o povo queria alguém que demonstrasse, no mínimo, capacidade de gestão. Zé Paulo é um deputado ainda sem expressão, conduzido por colegas socialistas. Como parlamentar não traz riscos nem para ele mesmo. Com prefeito poderia ampliar o tamanho do caos. Aliás, quem convenceu RC de que tinha que apoiar Zé Paulo em SR? Quem convenceu Zé  Paulo deixar o PC do B para isso?

Bayeux

Ricardo mais uma vez achou que bastava ungir um prefeito socialista. Expedido Pereira (PSB) faz um governo mediado, assistencialista e só. O mesmo de sempre. Mas o morador de lá quer muito mais. Se fala em modelo socialista de governar, mas lá todo mundo faz a pergunta: “por que esse modelo não chega aqui em Bayeux, mesmo com uma gestão do PSB”. Resolveram fazer outra aposta.

A vitória de Sousa

Saindo das derrotas e indo para a vitória, vale registrar Sousa. Lá, RC articulou a união das oposições. Uniu Tyrone e Zenildo Morais que estavam em pé de guerra depois do fim de uma parceria turbulenta. Com mais pé no chão e com cenário mais favorável, perceberam que, sem a união dos grupos, André Gadelha iria se reeleger. Tudo bem que a conjuntura e articuladores como Lindolfo ajudaram. O fato é que depois de aparar arestas conseguiram.

Enfim, vi muitos dizerem: até voto em RC, mas nele, nela, eu não voto. Não confio, não tem experiência. Ou:  por que ele inventou em apoiar tal nome? Perguntas que só reforçam que o cabo eleitoral pode ser até bom, mas se o candidato não “cair na graça”, não tiver qualidades reconhecidas, não basta uma boa unção. Vale uma autorreflexão e vários estudos de caso.

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